27 de outubro de 2011

Kiss me here, yeah baby, and go rest...

 Todo mundo tem um artista preferido, alguém com quem se identifique, que te inspire. A Amy não era um exemplo a ser seguido, tinha um talento quase surreal, mas não tinha autocontrole. Tinha uma voz incrível, mas não tinha amor próprio. Ela se destruiu, se matou, mas gritou por ajuda, pediu, implorou.
Acho que ninguém ouviu. Ninguém ouviu ela dizer que não queria beber de novo, que só precisava de um amigo. Ninguém ouviu que esse amor que ela sentia pelo Blake era destrutivo e que ela não queria aquilo, mas não sabia como se livrar dos próprios sentimentos. Ninguém nunca vê nem ouve nada até que seja tarde demais.

Se não enxergam o quanto uma pessoa pública está perdida, pobre daquele anônimo, que ficará marcado como o bêbado, o drogado, o fraco.

 À uma Amy que tinha o talento pra dar certo. À uma garota de carisma e voz inacreditáveis. À uma alma atormentada.  
Um brinde à solidão coletiva.

27 de setembro de 2011

I didn't write it, but I meant it.

Olhou-o com olhos úmidos, tentando engolir o soluço, procurava algum brilho para se agarrar.
“Então é isso?”
“Acho que sim.”
“Mas...”
“Não, não temos mais espaço para isso, sejam palavras ou gestos; não nos resta mais nada.”
E assim ela se pos a chorar, como que pela morte de algo importante, insubstituível, sugando todo ar a sua volta na esperança de que acabasse. Ele a abraçou evitando que caísse, sempre foram o pilar um do outro, e deixá-la desabar agora seria covardia.
“Desculpa, sei que não queria assim.”
“Você não tem o direito de pedir desculpas, de falar que vai melhorar, ou que eu sou a melhor coisa que já te aconteceu. Eu sei de tudo isso, e é tudo verdade, mas não é da sua boca que essas palavras devem sair.” Ela falava em gritos com o rosto afundado no peito, como que tentando entrar lá, entender o que se passava ali.
“Então o que você quer que eu diga?”
“Que você vai voltar.” Com a pouca força que restava agora tentava se afastar, mas os braços a sua volta cada vez mais apertavam.
“Não posso mentir para você. Seria injusto. Mas não vou te soltar até ter certeza que não vai sair daqui e fazer alguma besteira.”
“Claro que pode, você podia mentir pra sempre para mim, me faria feliz.”
“Mas não seria a verdade.”
“Para mim seria.”
“Eu te amo.”
“Mentiroso, agora eu já sei a verdade. E não importa o que faça, nunca mais será a mesma coisa. Uma ferida após aberta fecha, mas nunca volta a ser igual a antes.”
“Eu sei. Desculpa.”
“Já disse para não falar isso. Posso ir embora agora?”
“Só mais um pouco, por favor.”
“Se você não me deixar ir agora, vou achar que quer que eu fique.”
“Ta.”
“Eu te amo.”
“Eu sei.”
E assim a porta foi aberta, deixando ir um coração despedaçado e fechando outro partido. 

9 de setembro de 2011

Carpe Diem

Ele, bruto, ranzinza, apaixonado.
Inconsequente.
Entre todas as atitudes estúpidas que teve na vida, a maior foi tentar controlá-la.
Ela, um espírito livre, mulher de 50 sorrisos.
Sinceros.
Vivia conforme sua própria vontade.
Inconsequência consciente.
Partiu enfrentando a repressão abstrusa.
Carpe Diem escrito com sangue no chão.

2 de agosto de 2011

Sofismas de Sofia.

Sofia esperava uma resposta significativa, um sinal dos céus. Não queria sentir-se abandonada, não de novo, não poderia suportar. As noites tornaram-se eras a passar arrastadas, agora não só a alma, mas o corpo se cansava, desgastava, corroía-se. Implorava (mesmo sem ajuda de palavras difíceis) por ajuda, por alguma solução imediata. Pobre Sofia! Não sabe viver sem imediatismos e acaba por afundar-se em métodos paliativos de existência insofrível. A dor e solidão aplacadas por mentiras, histórias inventadas, nas quais tudo gira em torno da Princesa Sofi - a doce e ingênua. Agora mulher, de língua afiada, insensível, solitária. Buscava na ciência, drogas que a fizessem abandonar a consciência antes que sua cabeça tocasse o travesseiro, e na religião, buscava razões para não enjeitar-se por completo. Vivia um dia de cada vez, torcendo para que aquele fosse o último, deixando os anos escorrerem, junto à tinta vermelha,  ralo abaixo.

8 de julho de 2011

(In)correspondência.

Palavras têm realmente mais poder do que se imagina, quando ditas e, principalmente, quando não. Enviei uma carta e desfiz-me de um sonho. Escrita com lágrimas e muito pesar, doída, quase covarde perante a iminente entrega. Respiro fundo, as lágrimas chegam rapidamente aos olhos ao avistar a cuba amarela, mãos trêmulas. Milhões de pensamentos congestionando minha mente, não me contenho e deixo o choro correr solto, sinto o peso dos olhares alheios, o que torna tudo ainda mais difícil. Metade do envelope passado pela fresta, agora seguro apenas uma pontinha, ao deixá-lo cair balbucio um "Au revoir rêve chéri".

Au
revoir.

16 de junho de 2011

Enquanto houver fôlego.

Can you feel the lights on us?

Deitados, dedos e pernas entrelaçados. Emanavam o orgulho da primeira noite. Os olhos de Sofia depararam-se com os de João a percorrer seu corpo, parando quando seus olhares se cruzaram. Ele sorriu.
Ela observava as paredes, testemunhas da dança não-coreografada de seus corpos. Permaneceram ali durante horas apenas olhando um para o outro até os primeiros raios de sol invadirem o quarto. 
- Eu te desejo Sofia, seu corpo, sua alma. Te quero toda.

13 de junho de 2011

Das cartas escritas.

Venha quando quiser, ligue, chame, escreva - tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim. 
Caio Fernando Abreu
Querido Pedro, 
o tempo tem me trazido certas lembranças que pensei não mais possuir, trejeitos teus que havia esquecido, perdoa-me, mas minha memória permanece tão falha quanto nos anos que partilhaste comigo. Recordo-me de um dia em particular, não sei ao certo quanto tempo faz, mas sei que era um sábado de outono. Estávamos sentados na varanda com os pés balançando no ar, falaste naquela ocasião sobre partir. Lembro-me de ter soltado uma sonora gargalhada, como podias pensar em ir e não mais voltar? Não pensavas em mim, no vazio que me preencheras e que nada mais poderia? Aquele riso nervoso só afirmava o quanto me doía cogitar a possibilidade de não te importares com meu sofrimento - ainda me dói não teres pensado nele. Mal posso fechar os olhos sem lembrar do teu corpo estendido, ensanguentado. Penso ter adquirido toda tua negatividade no post mortem, no contato agora frio, vazio. Nossos olhares se cruzando pela última vez, as lágrimas nos olhos teus, jorrando dos olhos meus. Não há um dia em que repouse minha cabeça no travesseiro e não pense em ti antes de dormir - quando não me vem à face o choro. Sequer as palavras tem me satisfeito, meus livros estão empoeirados na estante, ansiosos pelos dedos frios a percorrê-los. Eu estou na estante, abandonada, por mim. Largada às traças.
Hoje o nosso F.P. faria 123 se estivesse vivo, você, do alto dos seus 23, diria-me para guardar as pedras de meu caminho, para que construíssemos juntos um castelo. Cadê você? Onde está o castelo que prometeste-me ajudar a construir?
Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Hoje já é outro dia meu bom amigo... outro dia.

Sem mais,
pseudônimos,
Rafaella.